O show da vida

31 de janeiro de 1998. Segunda apresentação do U2 em São Paulo, naquela primeira vez em que eles vieram. Uma longa espera para mim, desde aquele dia em 1986 em que, pela primeira vez, ouvi Where The Streets Have No Name num disco emprestado para meu tio. E quase não tinha dado para ir. Os ingressos já estavam há muito esgotados, eu já me conformava com a idéia de assisti-lo pela TV. Felizmente liberaram mais um lote de ingressos num sábado de manhã. Uma pequena aventura, troquei de roupa voando e fui mais rápido ainda para o ponto de venda, não sei como não tomei uma multa. Mas consegui os ingressos.
31 de janeiro de 1998 ficou marcado em minha memória como um dos dias mais felizes de toda a minha vida. Isso se não foi o mais feliz. Foi beatífico. Celestial. Quadridimensional. Me arrepio inteirinha até hoje só em lembrar. O show foi maravilhoso sob todos os aspectos, técnico, musical, empatia, clima. Perfeito. Apesar de estarem na turnê Pop Mart, espinafrada pela crítica (que até hoje diz que foi o disco mais fraco da carreira deles), o U2 estava em grande forma. E acredito que nem eles, estreando no Brasil, esperavam uma recepção como aquela. 90 mil pessoas naquele Morumbi lotado cantando o fim de Pride (In The Name Of Love)... cinco minutos depois do fim da música! Depois disso um Bono absolutamente emocionado fez um pequeno pronunciamento – o que todo artista deveria dizer para seu público. Agradeceu pela grande vida que nós, o público, proporcionávamos a eles, e por gastarem tanto dinheiro para vê-los (e na época o ingresso foi BEEEM mais barato...). Foi lindo demais! E o resto do show não ficou atrás. Cada um deles demonstrava estar genuinamente feliz em estar ali, naquele palco, com aquele público.
Francamente, teria valido a pena viver se fosse só por aquele dia. E não foi só aquela banda maravilhosa. Também pela companhia. Uma pessoa muito amada. Na verdade, a pessoa que mais amei nessa vida. (Ele sabe disso, não estou falando nenhuma novidade.) Ele fez parte de meu sonho. E mesmo que não estejamos mais juntos, sei que cada palavra que ele me disse naquele dia, ao som de All I Want Is You, era absolutamente verdadeira. Só isso já valeu. (Portanto, querido, não se preocupe se é ou não “uma das coisas que deram errado”. Sentimentos não são engessados. Nascem, crescem e morrem. E nem a morte é o fim, mas uma transformação.)
2006. Uma parte de mim adoraria estar no Morumbi, horas atrás. Ou mesmo vencer aquele concurso da MTV e ganhar um ingresso para o segundo show. A outra se conformou com o preço estratosférico do ingresso e com a absoluta impossibilidade de ficar dois dias na fila ou no telefone para comprá-lo. Ir a esse segundo show poderia significar uma quebra daquele encanto.
Assisti inteirinho pela TV. Não, não quebraria, não. Me emocionei um bocado. Eu gostaria de estar lá, mesmo! Mas analisando todos os aspectos, aquele show de 98 foi melhor. Bono já estava detonado, sem voz (nosso glorioso The Edge segurou lindamente a banda, fez os vocais mais complicados). O público, por incrível que pareça, parecia mais morno. E eu não tenho mais ninguém para ir comigo e me beijar enquanto toca With or Without You... Talvez seja melhor não voltar a Meca. Ou não ir a Meca, como aquele mercador de O Alquimista. Deixar por conta do sonho. Da memória, que depura tudo de ruim e deixa só o que é doce.
Escrito por Juliana Guido às 02h54
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