Eu sei escrever!
Uma das comunidades mais interessantes do orkut – inclusive lembro de tê-la citado aqui - é a Eu Sei Escrever. Basicamente é o espaço na rede de relacionamentos para um movimento com alguma força na internet: o de pessoas que não se renderam ao internetês, aquele abominável conjunto de alterações gráficas e gramaticais caracterizado por blz, aki, kkkk, akele/akela, vem k, 100noçaum, miguxu, falow, mew, naum, pow e esquisitices afins. Infelizmente essa aberração vem se disseminando com uma velocidade assustadora. E muitas vezes discrimina quem não a utiliza como “antiquados”, “pedantes”, “frescos”, “caretas”. Eu mesma pareço ser um fóssil vivo, então.
Não adianta. Manterei firmemente minha posição. Penso que quem tem a sorte de possuir acesso à cultura e à educação tem o dever de divulgar e preservar o que é certo. Isso é especialmente válido quando se trata da língua, seja falada ou escrita. Não é patriotada de minha parte, mas, mesmo achando Napoleão Mendes de Almeida um chato de galocha (tanto quanto devo ser considerada chata por adeptos do miguxês – tudo é relativo, não tem jeito), concordo com o que ele disse a respeito de língua e nacionalidade. O brasileiro sempre foi um tantinho xenófilo demais, primeiro com os franceses, depois com os americanos, a partir do século passado, e na ânsia de absorver, de digerir o que vem de fora acaba negando o valor de “iguarias” autóctones, interessantes e substanciosas. De negar o valor para adotar, sem espírito crítico, é um pulo. Este processo intensificou-se nos últimos anos, com o desmonte da educação pública e a queda na qualidade da programação televisiva. Mais um fator, este mais recente: nosso supremo mandatário da República gaba-se de ter atingido seu posto sem estudo, sem diploma (ausências bem claras, aliás, com o aumento do índice presidencial de asneiras ditas em público). Com um desestímulo desses quem vai querer gastar anos e anos estudando, quando se pode ser jogador de futebol, modelo, atriz, cantor de pagode ou presidente da República? Pra quê estudar? Isso é coisa de nerd, CDF. Hoje o bacana é ser ishpérrrto, cabular aula e pagar de gatão. E o internetês é o meio de expressão dessa geração que se gaba da própria ignorância.
Por tudo isso eu tomo muito cuidado com a maneira como me expresso, seja neste blog ou em qualquer outro lugar. Não sou infalível – os amigos hão de flagrar alguns errinhos aí pelo meio dos textos. Também procuro não parecer muito pedante, no fim das contas. Um pouquinho coloquial, provavelmente. Mas procuro ser correta com o que escrevo. É o meu bastião, um reduto, uma resistência sistemática a uma expressão aparentemente inocente que esconde em seu bojo uma aberração cultural e ética.
Escrito por Juliana Guido às 21h50
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