Nana-o-rama


   Voltei a trabalhar hoje. Em outro lugar. Voltei para onde trabalhava até um ano e meio atrás. Reencontrei amigos queridos, uma convivência que desde já me alegra. Por outro lado deixei também colegas que se tornaram amigos. Não tem jeito. Não se pode ter tudo na vida... Por outro lado, ainda estou revoltada com o que aconteceu na madrugada de ontem. Faço mais um desabafo. Mas também acredito que todo esse problema tenha uma solução. Vamos a ela...

 



Escrito por Juliana Guido às 17h50
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Despedidas

 

   Amigos,

   Não pensem que a decisão da volta para o Instituto foi tão fácil, assim. Na verdade levei as férias inteiras pesando todos os prós e os contras. Pensei muito, meditei, refleti. Cheguei à conclusão que, neste momento, é o melhor a fazer. Tenho um concurso que é a chance de alavancar minha vida e preciso dar tudo de mim. É a prioridade máxima. E, como vocês sabem, nosso local de trabalho exige demais de nossa energia. Simplesmente não estava conseguindo conciliar as duas coisas. E não aprovo a idéia de fazer qualquer uma delas pela metade. Aliás, não devemos fazer nada nesta vida pela metade. Não vale a pena. Por isso me despeço. Vou para um lugar conhecido, familiar mesmo. Ao mesmo tempo, uma parte de meu coração fica pequenina ao quebrar uma convivência tão rica como a que tive neste último ano e meio. Conheci pessoas fantásticas, muito diferentes entre si, uma diversidade de formas de ser e de se pensar fabulosa, o que me propiciou um aprendizado riquíssimo sobre o ser humano e a própria vida. Foi uma etapa difícil para mim, muitas vezes sofrida, caí e precisei levantar. Mas também tive muito carinho, atenção, apoio, demonstrações de disponibilidade e desprendimento muito lindas por parte de vocês. No fim das contas, mesmo com o cansaço e o desgaste, o saldo é grandemente positivo. Aprendi muito com tudo. E devo isso a vocês.

    Eu sei que não ficaria aí para sempre. Nem vocês, provavelmente – pelo menos não podemos afirmar com certeza. O budismo diz que tudo é impermanente. A própria vida é impermanência. Hoje estamos aqui, amanhã em outro lugar, depois de amanhã não se sabe, no caminho para a evolução. Assim são as coisas.  Um rio não teria a mesma beleza, nem aquele barulhinho bom, se suas águas fossem paradas. Mas tem outra coisa da qual o budismo fala. Da interdependência. Tudo e todos estão ligados, de alguma forma. Vocês estabeleceram laços espirituais comigo. E eles não se desfarão, a despeito da distância. Vocês já moram aqui dentro de mim.

    Desculpem-me por alguma falha, algum chilique.  Espero, apesar deles, ter deixado uma marca positiva de minha passagem. Tenham certeza de que vocês todos, de alguma maneira, deixaram lindas marcas em minha história, através da convivência e da amizade. Muito obrigada.



Escrito por Juliana Guido às 17h47
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Ô de casa!

   Estou feliz em voltar para o Instituto. Talvez a etapa seja curtinha. Mas muito do que escrevi aí em cima é válido para vocês. Conjuguem no presente e futuro próximo. Um grande abraço e até amanhã!



Escrito por Juliana Guido às 17h47
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Ainda a revolta: recado para o marginal que arrombou minha garagem

   Seu nada. Nada, mesmo. Isso. Claro que sei que você não lerá estas linhas. Você não deve saber o que é internet. Ficaria admirada se você soubesse ler e entender algo mais profundo que um rótulo de cigarros. Você não passa de um substrato. Não dá nem para classificar você como um animal. Estes costumam matar ou invadir a cozinha de casa para comer, seguindo seus instintos. E têm capacidade para o carinho e o respeito com o outro, coisa que você não tem, portanto, não merecem tal comparação. Então é substrato, mesmo. Pode reclamar de preconceito de minha parte. Estou cansada de ver gente da sua espécie me afrontando e ameaçando em nome de “atenção”, como se eu tivesse alguma culpa pelo seu estado miserável. Não tenho. O fato de eu comer, andar de carro, me vestir não é uma afronta a um pobre. Tudo isso é fruto de trabalho honesto. Mais. Estudei para chegar onde estou. Anos de esforço. Mereço cada um dos bens que possuo, fiz jus a eles. E ainda vou conquistar muito mais, se Deus quiser. Sei muito bem que a culpa não é só sua. Você e sua miséria, seu vício, sua pobreza moral e espiritual são frutos da omissão criminosa de anos e anos de desgoverno, que deveria ter dado saúde, educação e condições mínimas de dignidade humana, e, no entanto, arrancam impostos até mesmo do chiclete vagabundo que você masca. Mas não vá se achando vítima, não. Não acredite naquele finado governador de São Paulo que falava de criminosos como “vítimas da sociedade”. Da sociedade, o cacete! Vítimas de omissão do governo, isso sim. Mas não é o único fator, seu idiota. Tem muita gente humilde, miserável, mesmo, que consegue se manter honesta apesar de toda a falta de meios de sobrevivência digna. A propósito, é a grande maioria da população brasileira. Ignorante, paupérrima, mas digna. Criativa. Driblando a dificuldade com brio e honestidade. Tudo é uma questão de escolha. De moral. De honra. Pobreza por si só não leva ao crime. Nem os ricos são blindados para ele – temos membros de nossa classe política que não nos deixam mentir. Gente que só não vai presa porque pode pagar pelos serviços dos maiores escritórios de advocacia do País. A diferença entre eles e você é que eles não precisam andar armados com um pé-de-cabra. Arrombam através de cargos públicos. E você é tão deletério quanto eles, seu merdinha. Sua ameaça é mais torva, mais próxima, mais real. Você danificou meu carro. Nem levou nada dele. Só me deu prejuízo. Está orgulhoso disso? Feliz? Ou acha que pode fazer mais estragos? Se emende, seu cretino. Tente mudar de vida. Vá se educar. Tem gente tão miserável quanto você que consegue fazer mais e melhor da vida do que ficar fumando crack e quebrar vidros de carros alheios por aí. Vá fazer algo melhor. Se continuar assim não vai sobreviver por tempo suficiente para conquistar nada. Nem respeito.



Escrito por Juliana Guido às 17h46
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Solução (1)

 

   Mais uma discussão do orkut, em uma comunidade voltada para a política. Um rapazinho com veleidades políticas, mas ainda um tanto ingênuo, defendia o indefensável de um governo anterior. Comecei a trocar idéias com ele. E quando me dei conta, tinha escrito o que acredito ser a única solução para este País. Por isso o posto aqui. Adoraria que algum político sério o lesse...

 

   Oi, Crítico! Observe que a solução para a maior parte dos males que você citou passa, necessariamente, pela educação. Depredação das escolas, falta de interesse e sinergia entre pais, professores e alunos, enchentes, sujeira, a maior parte das questões de saúde pública. Pessoalmente, se eu fosse presidente do Brasil, a minha primeira atitude não seria um Fome Zero, mas sim um Educação Total. Investiria pesadamente na questão, com novas escolas, reformas consistentes das antigas, professores com salários justos, bem treinados, motivados e protegidos, esportes, alimentação, lazer cultural, etc. de forma a prover educação em tempo integral para todos. Sonho com uma escola pública tão boa, mas tão boa, que só precisaria pagar uma particular quem quisesse, por exemplo, educação religiosa. Dizem que no Chile é assim e não duvido, diante do grande desenvolvimento e relativa tranquilidade alcançados por aquele país em meio à bagunça geral da América Latina. Sei que minha mãe seria mais lembrada que a de um juiz que tivesse anulado um gol legítimo num jogo São Paulo x Corinthians, quase todo mundo alegaria que existem outras prioridades. Na verdade, num país tão carente quanto o nosso, tudo vira prioridade. Mas a maior parte das coisas passa, realmente, por uma educação de qualidade. Não tem jeito. E o Brasil sofre há mais de trinta anos (portanto, não se pode culpar o PSDB por todo o problema, mas por não fazer nada mais efetivo para mudar a situação enquanto foi governo - FHC se gabou de ter posto mais de 90% das crianças na escola, mas e a qualidade do ensino?) com o absoluto descaso dos governos com a questão, muitas vezes por interesses sujos.

   Você já deve ter observado que governos ditatoriais, sejam de direita ou de esquerda, sejam ditaduras militares, econômicas ou políticas, costumam "esquecer" da educação por uma razão muito simples: povo ignorante é povo manipulável, sem espírito crítico, que vai topar qualquer falcatrua perpetrada sem maiores críticas. E isso não é exclusividade de "repúblicas de bananas". Bush faz isso. E não é só para destinar mais recursos para a campanha do Iraque...

(segue)



Escrito por Juliana Guido às 17h44
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Solução (2)

   Na verdade, precisamos quebrar um círculo vicioso instaurado há muitos anos e iniciar um virtuoso. E isso vai demandar investimentos humanos e materiais muito pesados, como se fosse uma guerra, mesmo. Mal comparando, seria o nosso Iraque. O povo brasileiro precisa de cultura. Ninguém precisa sair falando em vinhos ou discutindo Kierkegaard, mas do mínimo. De saber que determinados alimentos não fazem bem, ter noções mínimas de higiene e limpeza, por exemplo. Você diria que isso é o mínimo. É o mínimo para a gente, que teve a sorte de nascer numa classe se não média, remediada. Tivemos a sorte de ter uma base familiar mais sólida, com um mínimo de cultura, e sabemos fazer essa triagem. Não é o caso da maioria da população. As pessoas não sabem mais o mínimo! Sou policial civil, trabalhei com atendimento direto ao público e vi coisas absurdas. Eu já vi gente chupando balas, dobrando o papel e enfiando-o no vão do móvel, tendo um lixo do lado - na minha frente. Tem pessoas que passam semanas sem tomar banho, sabia? Já atendi alguns que me obrigaram a fazer a maior pantomima, como se eu estivesse procurando algo atrás de mim, para inspirar forte e prender a respiração porque o cheiro era simplesmente insuportável, mistura de tudo o que você possa imaginar. Roupa suja daquelas que você não consegue definir a cor. E nem se pode culpá-los por isso. Os pais também não sabiam, os avós, muito menos, numa perpetuação de séculos de ignorância. Como dar a um filho a informação que não se tem, por mais básica e elementar que seja? Aí entra a escola. Ela tem função primordial num país pobre. Não dá para tratá-la com o desdém com que tem sido tratada.

   Nisso até a televisão teria um papel mais efetivo. Citei um exemplo em meu blog, esta semana. Quando eu tinha uns dez anos, o programa que passava na Globo aos domingos de manhã era "Cosmos", a série de Carl Sagan. Maravilhosa. Tratava de alta ciência com uma linguagem acessível ao público médio. Com certeza despertou a curiosidade de muita gente, mesmo de crianças como eu. Quantos não devem estudar hoje por Física, Química ou Astronomia e não foram motivados justamente por este programa! Agora, pare e repare. O que a Globo passa aos domingos de manhã? A missa do padre Marcelo, esse luminar do obscurantismo e do proselitismo religioso. E o resto da programação é de doer. O que acrescenta, por exemplo, o Caldeirão do Huck e suas atrações de gosto duvidoso, as Tati Quebra-Barraco da vida? Um seriado enlatado? Um Big Brother? Não digo que a TV brasileira não tenha exceções. A própria Cultura, do governo do Estado, é um exemplo. Os programas infantis que eles fazem são tão bons, mas tão bons que até um adulto pode passar horas se divertindo com eles. Música de qualidade. Onde mais uma gigante como Inezita Barroso teria espaço numa TV comercial dominada pela porcaria macaqueada dos States? As TVs educativas, idem.

   Não adianta. A TV precisa se reformular, também. Não sou nenhuma moralista que prega, por exemplo, o fim das novelas, das cenas de sexo. Mas hoje, no Brasil, você precisa explicar os riscos e consequências do ato, sejam as DSTs ou uma gravidez não-planejada. Mais. Não é só fazendo um Telecurso que se transforma uma TV em educação. É preciso muito mais que isso. E também não é com um passa-moleque como um Amigos da Escola que a TV melhora a educação!

   Vai por mim. Você tem pretensões políticas. E deve ter talento para isso. Eu não tenho. Pouca gente tem. Você será representante direto nosso. Invista na bandeira da educação. Sei que parece uma causa "chata", pouco "vendável" em termos de marketing. Mas se você quer atacar os problemas do Brasil pela raiz, não o conseguirá sem mexer profundamente no sistema educacional. É um trabalho para gerações, de longo prazo e talvez não gere grandes dividendos eleitorais. Mas se a sua idéia é o bem do País, invista na educação. Faça projetos nesse sentido. Se o fizer, terá meu voto.



Escrito por Juliana Guido às 17h44
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     Hoje eu queria falar do 7 de Setembro de um jeito um pouco mais leve. Ia falar, sim, das tristezas, mas dar ênfase ao que este País tem de melhor. Ao bom humor. À criatividade e capacidade de trabalho de seu povo. Tinha pensado até num logo especial para a data, em verde e amarelo.

     Mas a verdade é que hoje, excepcionalmente, não porei nenhum logo. Nem o brazuca, nem o usual. Infelizmente, o tom de minha manifestação se impôs de forma brutal. O carro das fotos a seguir é meu. Estava na garagem de casa, portão trancado, teoricamente protegido. Hoje de madrugada (aproximadamente às 4 da manhã), um elemento forçou o portão com um pé de cabra, entrou, usou o mesmo instrumento para tentar forçar a abertura da porta do veículo e, como não conseguiu, quebrou o vidro. Por pouco não levou o toca-CD, não tivesse notado a presença de um vizinho que àquela hora ia levar a filha ao trabalho.

     Tudo bem. O vidro tem conserto. O seguro cobre. O amassado da porta também não foi tão grande. Nada foi levado de dentro do meu carro. O dano maior foi outro. A minha tranquilidade. Minha paz. Minha e de minha família. E de meus vizinhos. Esse é mais grave. Mas não é o único. Nos últimos meses, três carros foram furtados só no meu quarteirão. Nem sinal deles. Nem de quem esteja aprontando por aqui.

     O fato é que hoje, se não somos roubados pelo governo das mais diversas formas, seja via corrupção, incompetência, carga tributária escorchante, indústria das multas, etc., somos pelos bandidos, que estão fazendo a festa ante um poder público inoperante e desmoralizado. A que ponto chegamos. Que triste.

 



Escrito por Juliana Guido às 12h01
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Só para lembrar

   Presidente, o senhor tem escolta, não? O senhor governador, também, suponho. Da mesma forma o prefeito. E alguns amigos mais ricos do poder. Nós aqui não temos, senhores. Estamos desprotegidos dentro de nossas casas. Hoje entraram só na garagem e quebraram o vidro e, graças a Deus, não fizeram mais nada. Será que teremos que esperar que entrem em casa de vez, roubem tudo, nos estuprem e nos matem? Quantas vezes isso já se repete?

   Queremos lembrar aos senhores que não somos os primos malas do interior que se aboletam em suas casas, ligam a sua TV, comem o que há na geladeira. Nós pagamos impostos. A bem da verdade, somos nós que os sustentamos para, em tese, prover serviços essenciais como saúde, educação e segurança. Pois bem. Temos que pagar escolas particulares, planos de saúde e seguros para os carros. Enquanto isso, os senhores aumentam os impostos. E nós não vemos o retorno. Os senhores, sim, estão se comportando como sanguessugas. O poder que deveria servir ao povo passou a existir só para ser servido. Isto está certo, senhores?



Escrito por Juliana Guido às 12h01
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    Hoje de manhã acordei com vontade de escrever, até porque a manifestação da última sexta foi pequena, além de muito específica. A semana promete. Volto a trabalhar na quinta, depois do feriado. Tenho três dias para acordar mais tarde, ficar trancada em casa... Vou aproveitá-los, degustá-los como quem toma um vinho precioso. Com carinho, calma, vagar. Até a última gota. Que eles deixem um gosto bom depois.

 



Escrito por Juliana Guido às 12h59
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Espiritualidade

 

   Neste fim de semana tive um debate muito interessante no orkut com o Aurélio, o ateísta. Ele criou uma comunidade contra a Canção Nova e a RCC, da qual participo. Ela congrega pessoas dos mais diversos credos e não-credos, que possuem em comum a aversão a essas duas entidades, mestras em manipular a fé alheia visando lucro. Claro que a comunidade tem bastante ateus, virou até um ponto de encontro, com muitos tópicos discutindo a questão especificamente. Pois bem. Aurélio postou uma matéria sobre o aumento no número de ateus nos EUA, e, em determinado ponto, declarou: “Religião é como um vírus. A criança é condicionada desde cedo a acreditar que existe um deus (sic) e nos dogmas de uma religião. Quando algumas pessoas, digamos, se ‘curam’ deste vírus as outras que estão ‘infectadas’ se voltam contra ela.”. Rebati seu argumento e gostei do que escrevi! Acabei definindo o que penso a respeito como nunca tinha feito antes. A resposta dele também foi linda, uma citação maravilhosa de um texto de Carl Sagan. (Como um homem que escreve um texto desses pode ter sido ateu? Inacreditável.) Publico-o em seguida.

 



Escrito por Juliana Guido às 12h58
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O debate

(Juliana) Todos os teístas contra os ateístas? 4/9/2005 06:58
Não necessariamente, Aurélio. Um teísta não precisa, obrigatoriamente, ser um fanático destinando os ateístas ao mármore do inferno. Lembro que disse aqui uma vez acreditar em Deus, e que você me deu uma resposta bastante forte. O argumento dos ateístas é bastante convincente, muito lógico, e não o descarto. Pelo contrário, meu lado intelectual o considera com seriedade. Não consigo crer num Deus mesquinho e vaidoso que cobra a adoração dos seres humanos, esses "substratos de pulga" zanzando por esse pequeno "grão de areia" criado pela Deidade e tão generosamente a eles destinados. Em um Deus sádico, pronto para punir quem não reza pela sua cartilha, distribuída por aqueles que se dizem seus "representantes". Mas não consigo deixar de crer numa força superior. Você pode rebater minha argumentação com algum desdém e me perguntar, com razão, quem desenhou o designer ou me mandar um punhado de links com fotos sobre teratologia e perguntar se foi o "deus amor" quem permitiu essas aberrações. Sinceramente: não sei responder. Talvez Deus seja uma necessidade psicológica. Não sei se conseguiria me livrar de anos de condicionamento (via educação, família, etc.) e me tornar atéia. No máximo, eu seria agnóstica. De qualquer maneira, ainda preciso deste "efeito placebo", da comunhão espiritual, que, para mim, tem funcionado. E espiritualidade é algo íntimo demais. É algo entre Deus e a pessoa. Cada um tem a sua relação - ou não-relação - com Ele. Por isso mesmo não aceito a interferência de um sistema religioso nessa relação. Em minha opinião, religião só atrapalha. Fanatiza. Entorpece mais que qualquer droga. Por isso a dispenso e combato. A religião, não Deus. Por isso mesmo estou aqui.

 

(Aurélio) 4/9/2005 06:58
"Não necessariamente, Aurélio. Um teísta não precisa, obrigatoriamente, ser um fanático destinando os ateístas ao mármore do inferno."

Correto.

" De qualquer maneira, ainda preciso deste "efeito placebo", da comunhão espiritual, que, para mim, tem funcionado. "

Elogio sua honestidade em afirmar isto. Poucos a tem.

"E espiritualidade é algo íntimo demais."

Como dizia Carl Sagan:
"“Espírito” vem da palavra latina que significa “respirar”. O que respiramos é o ar, que é certamente matéria, por mais fina que seja. Apesar do uso em contrário, não há na palavra “espiritual” nenhuma inferência necessária de que estamos falando de algo que não seja matéria (inclusive aquela de que é feito o cérebro), ou de algo que esteja fora do domínio da ciência. De vez em quando, sinto-me livre para empregar a palavra. A ciência não é só compatível com a espiritualidade; é uma profunda fonte de espiritualidade. Quando reconhecemos nosso lugar na imensidão de anos-luz e no transcorrer das eras, quando compreendemos a complexidade, a beleza e a sutileza da vida, então o sentimento sublime, misto de júbilo e humildade, é certamente espiritual. Como também são espirituais as nossas emoções diante da grande arte, música ou literatura, ou de atos de coragem altruísta exemplar como os de Mahatma Gandhi ou Martin Luther King. A noção de que a ciência e a espiritualidade são de alguma maneira mutuamente exclusivas presta um desserviço a ambas."

 

(Juliana) 4/9/2005 07:03
Belo texto, Aurélio. Carl Sagan sabia das coisas. Definiu o que penso e sinto.



Escrito por Juliana Guido às 12h57
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Falando em Carl Sagan

 

   Não posso dizer que tenha sido uma criança lá muito comum. Quando eu estava no pré, minha mãe chegou a receber uma carta da psicóloga da escola dizendo que ela (a mãe) deveria me levar logo para um psiquiatra porque eu era autista. A razão? Quando eu me cansava de pintar os desenhos que a turma ainda estava começando, simplesmente saía da sala de aula para observar as formiguinhas andando na grama. Aprendi a ler antes dos quatro anos. Aos oito, nove anos já lia o jornal inteirinho (achava o caderno infantil muito bobo). Por essa época meu programa de TV preferido era Cosmos, que passava nas manhãs de sábado (ou domingo?) na Globo. Não perdia um. Achava o máximo. A essas alturas minha mãe já tinha me dado de presente o bolachão com a trilha sonora do seriado. E um amigo dela me deu um presentaço: o livro. Maravilhoso. Despertou-me logo para questões transcendentes. Como pode um Universo já infinito encontrar-se em contínua expansão? Do que ele é feito? Quantos planetas existem? Será possível que a Terra seja o único planeta com sistema de vida inteligente num Universo tão imenso? Como tudo teria começado? O livro não responde tudo. Mas faz pensar. Inclusive espiritualmente, apesar de ser um livro científico e de seu autor declarar-se ateu. Duvido que ele fosse, de fato (veja a citação do texto acima). Talvez no fundo ele esteja mais para Alberto Caeiro em O Guardador de Rebanhos. Acredito, sim, na teoria do Big Bang. Mas Alguém, uma energia e/ou inteligência superior, deve ter projetado isso. Sagan diria que essa crença é fruto do desconhecimento. O ser humano tende a atribuir a um ente superior tudo o que desconhece. Ainda incorro nesta “falha”. Falha? Acho que um Universo como o nosso, tão lindo, tão grande, tão harmônico em suas forças, não poderia ter saído de uma mente humana. Neste ponto concordo com Kepler, que formulou importantes princípios da Astrofísica.

    Sagan sabia escrever. Desmistificou intrincados conceitos científicos, trazendo-os para perto de quem não entende do riscado. O fez com seriedade, beleza, elegância e humor.

    Cosmos, o livro, está em minha estante (com passagens frequentes pelo criado-mudo) até hoje, detonado pelos anos de manuseio sôfrego por parte de uma pré-adolescente, mas está. E até hoje me encanta. Quanto ao programa, a Globo (ou qualquer outra emissora) prestaria um serviço à Nação o reprisando. Um banho de cultura e inteligência num País cada dia mais assolado pela burrice e ignorância. Melhor ainda se fosse no lugar da missa daquele “evoluído” padre Marcelo. Ou de algum Bob Esponja da vida. Horário há. Será que os direitos autorais são tão caros assim? Na verdade, acho que não. Considerando a qualidade da série e a possibilidade da popularização das idéias de Carl Sagan, a relação custo-benefício é mais que vantajosa.



Escrito por Juliana Guido às 12h54
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A título de ilustração: trecho d´O Guardador de Rebanhos

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

 

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

 

Que ideia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas

Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

 

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

 

«Constituição íntima das cousas»...
«Sentido íntimo do Universo»...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

 

Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.
O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

 

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

 

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

 

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

(...)

 

Fernando Pessoa.



Escrito por Juliana Guido às 12h53
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Escrito por Juliana Guido às 12h52
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Amizade

 

    Esta última semana foi pródiga no contato humano. Mais especificamente com meus amigos. Ouvi, fui ouvida. Ri, chorei. Recebi lindas demonstrações de generosidade e desprendimento, como do Décio, que se dispôs a gastar um precioso dia de folga no trabalho para ensinar Química para mim e Tamy. Repassou toda a matéria, com a maior paciência e bom humor deste mundo. Claro que falamos umas besteiras no meio, amigos também são para isso. Falível que sou, esqueci uma amiga querida com quem não falo há muito tempo, apesar de morar a poucos quarteirões de casa. Recebi um e-mail de Marcelo, O Hómi, colega de faculdade que vi pela última vez no começo deste ano, quando Esther tinha só dois meses. Claro, está crescidinha e, segundo o juízo suspeito do pai babão, linda (N. da T.: ela é bonitinha, sim!). Também comentei o curta da Andréa, minha colega que faz Rádio e TV, que passou no Canal Universitário. Imagino e me rejubilo com sua felicidade. Naturalmente ela está orgulhosa de seu trabalho, e deve, mesmo. Não escrevi para Mingau, e deveria fazê-lo – não gostaria que esse reencontro, depois de tantos anos, fosse só uma carta de intenções. O mesmo vale para o pessoal do EMECE. Duzão, guardei seu e-mail com o telefone. Vou ligar. Tem os amigos do orkut, para quem devo passar a maior impressão de ser uma tremenda relapsa. A banda também fez uma demonstração bacana de carinho para o Giosa. Fizemos um bota-fora para ele no estúdio, com direito a guloseimas, bexigas e fantasias. E ele, como sempre, foi um doce. Embora tenhamos recebido aquele que deve ser nosso novo amigo (sim, porque a 80s é, antes de tudo, uma irmandade), sentiremos saudades. Também vivenciei uma grande amizade que, apesar da distância de tempo e espaço, nunca se dissociou, de fato – esta misturada com amor. Um grande amor. Mesmo que ele não se realize como relação amorosa, quero que seja uma amizade para toda a vida.

    Não só para esta pessoa em especial. Amizade, mais do que qualquer outra coisa, é uma união de almas. Mesmo distantes, separadas pelo cotidiano duro, pela distância e pelo cansaço que a vida traz, o vínculo está ali. Latente. Cabe a nós ativá-lo. Não há necessidade de querer ser como Roberto Carlos, o Repórter Vesgo ou o Léo Jaime no orkut, que querem um milhão de amigos. Bastam os poucos e bons, aqueles que sabem que, apesar do tempo sem se falar, é só ligar, como naquele velho clássico do soul, que deve ter sido pensado como amor, mas que serve para a amizade, que, no fim das contas, também é uma forma de amor. Dedico a canção a meus amigos queridos. Mesmos os distantes estão bem perto. Na verdade, dentro de meu coração. Obrigada por tudo.

 

If you need me, call me, no matter where you are, no matter how far

Just call my name, I´ll be back in a hurry, you don´t have to worry

´Cause baby, there´s ain´t no mountain high enough

Ain´t no valley low enough

Ain´t no river wide enough

To keep me from getting to you, babe



Escrito por Juliana Guido às 12h52
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Katrina & the waves on Lake Pontchartrain

   Causa-me grande contristamento o desastre provocado por mais um furacão no sul dos Estados Unidos. As perdas humanas e materiais já seriam motivo suficiente para a tristeza, mas tudo fica pior quando se tem um governo inepto, ridículo, inoperante, que destina todos seus recursos e energia numa guerra estúpida, motivada por neuroses pessoais e esquece os próprios cidadãos dentro do território nacional. Principalmente se forem pobres e negros do sul. O que são eles, no fim das contas? Fica mais fácil chamar esse pessoal de preguiçoso, não? Aliás, who the hell foi o infeliz que foi lembrar que quem ficou só o fez por falta de meios materiais para escapar do inferno das águas?

 

 

 



Escrito por Juliana Guido às 12h51
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