Uma homenagem
Amanhã, 2 de julho, bisa Alice faria 90 anos. Filha de portugueses, ela nasceu em Xavantes, interior de São Paulo e foi criada na fazenda. Formou-se professora, casou-se, separou-se ainda grávida de minha avó, num ato ousado para a época – ela ainda precisava dizer que era viúva. Com o pai doente, mudou-se para São Paulo nos anos 40 e trabalhava em três empregos, cuidava da casa, da família – que incluía ainda uma irmã mais nova e uma sobrinha – e ainda costurava para fora. Uma batalhadora que adotou o trabalho como bandeira e a família como paixão. Como a Maria Valéria de Érico Veríssimo, para ela, amar era servir. E ela o fazia num misto de carinho, atenção, extremo desvelo e um pouquinho de rispidez. Um bom exemplo eram as férias na casa de Margot, amiga dela, em Itanhaém: uma hora por dia em cima do caderno de caligrafia, senão não tinha praia. Super ativa, só se aposentou com mais de 60 anos e mesmo assim não sossegou: fazia crochê como ninguém e adorava uma comprinha na 25 de Março, principalmente antes do Natal, quando enchia malas de presentes e comida e ia para Curitiba passá-lo com sua irmã mais nova, mãe de seis filhos, genros, noras e um monte de netos. Mas não ia sem antes fazer a nossa festa... Era festeira, a velhinha, adorava uma bagunça, boa música (seu radinho de pilha tocava Cascatinha e Inhana e Inezita, lembro bem de noites de minha infância, antes de dormir), uma boa comida, a família reunida, enchia o ar com seu risinho seco e engraçado e era capaz de vibrar como uma criança com um Papai Noel do Paraguai que acendia uma lampadinha e tocava Jingle Bells.
Em 1995 ela cumpriu seu ritual natalino pela última vez. Fui junto com ela fazer compras. Ela me mimou como nunca: bastou comentar que tinha achado um determinado objeto “bonitinho” que, minutos depois, ela me aparecia com ele (“você gostou, estou te dando de presente!”). O médico tinha dado ordens expressas para que ela não viajasse – os rins estavam falhando, seu coração cansado já tinha nos dado um susto três anos antes acompanhado por um prognóstico de três meses de vida. Mas dona Alice era teimosa feito uma mula, lá foi ela tomar o Cometa rumo do Sul. Minha avó precisou buscá-la de carro, no dia 23. Ainda pudemos passar a noite do dia 24 juntas. Fiquei um bom tempo a seu lado na cama. Dia 25 ela se foi.
Bisa, eu sinto sua falta. Gostaria que a senhora estivesse na platéia do auditório da FAU no dia de minha formatura. Mas saiba que, quando ergui aquele canudo na direção do céu, era em você que eu pensava. E até ouvi a sua risadinha. Não foi a única vez que senti vontade de tê-la por aqui, fisicamente. Que saudade daquelas tardes fazendo pão de queijo, quando eu te fazia contar histórias de sua vida. Como eu queria o seu colo meio duro, mas gostoso. A sua companhia sólida, meio zangada, reconfortante. Mas a senhora está no meu coração. E, para mim, ainda anda pela 25 de Março.
PS – É, a senhora se foi, mas deixou vó Lídia por aqui. E ela está cada dia mais parecida contigo, o mesmo jeitão, o mesmo cuidado, o mesmo carinho. Eu tenho mesmo muita sorte.
Escrito por Juliana Guido às 19h23
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