Nana-o-rama


Acho que estou precisando de um bom banho, de uma boa comida e cama!!!

 



Escrito por Juliana Guido às 15h34
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O sonho mais sonhado

 

   Hoje resolvi mudar o roteiro de volta do trabalho. Em vez de pegar o Minhocão, virei à direita para entrar na Maria Antônia e seguir por Higienópolis, lugar que sempre me encantou. O trânsito estava pesado – o que esperar das vizinhanças de um shopping na véspera do Dia dos Namorados? Sem stress. A avenida Higienópolis tem prédios maravilhosos, de arquitetura fantástica, frutos de um tempo em que não se economizava dinheiro, espaço, arrojo e extremo bom gosto. É um prazer parar e olhar para eles. Parada no semáforo, distraía-me com um painel de mosaicos quando desviei o olhar na direção da calçada do Consulado da Itália e deparei com algo que me emocionou profundamente.

    Uma faixa na entrada de um dos prédios. Branca, comum, daquelas que anunciam pet shops e assistências técnicas de celulares. Faixas são muito comuns pela cidade e acabam sendo mais lembradas como mais um elemento de poluição visual. Mas essa faixa em especial me pegou. Ela continha uma mensagem. Curta. Simples.

   “Amo meus filhos, adoro meus netos, mas você é a minha vida. Eu.”

   Ela me tocou de pronto pela síntese de um grande amor nela contida. Não acredito que uma frase dessas possa sair meramente da mente criativa de uma mulher querendo agradar seu marido por ocasião de uma efeméride tão contaminada – até porque essa é sua origem – pelo espírito comercial. Há muito mais por trás dela. Imagino toda a história de vida desse casal. Só uma história muito legal pode possibilitar uma manifestação tão linda. Só um amor dos grandes que une, que não se deteve nas primeiras brigas e dificuldades. Uma história plena de companheirismo, cumplicidade, tolerância, apoio mútuo, paciência, empatia, carinho, química, respeito, ternura.

    Estou arrepiada até agora. Chorando um pouco, também. Confesso que com uma pontinha de inveja. E sentindo um enorme desejo de ter para mim uma história assim. A solidão não é propriamente um problema para mim, mas eu não sou de ferro. Também quero um companheiro. Isso. Mais que um marido, um companheiro. Alguém para andar junto pela vida. Não grudado, nem tão à minha frente que eu não consiga acompanhá-lo, nem tão atrás que eu não possa puxá-lo pela mão, mas ao meu lado. Alguém para realizar sonhos comuns, crescer e envelhecer juntos, olhando para trás e concluindo que tudo valeu a pena. No fim das contas isso não é o que todo mundo sonha?

    Não vou ser egoísta a ponto de sonegar esse sonho só para mim. Desejo que todo mundo possa provar desse grande amor. A vida fica muito mais rica. O mundo, melhor. Feliz Dia dos Namorados!

 

   PS1 – Eu tenho um exemplo assim em casa. Meus avós, Alcides e Maria Lídia, casados há 48 anos. Eles até têm lá suas picuinhas, toda vez que vão ao supermercado dá briga, mas estão sempre juntos. E é muito lindo vê-los andando de mãos dadas, brincando um com o outro ou aconchegados no sofá da sala. Sim, a história deles está valendo a pena.

 

  PS2 – Hoje minha mãe está escolhendo sua aliança para o casamento com Joaquim, xará de meu gato, médico e pessoa muito simpática. Meus desejos de muita, muita felicidade. Vocês merecem. Sintam-se ternamente abraçados.



Escrito por Juliana Guido às 15h33
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   Hoje estou em casa. Trabalhar é bom, mas um dia de folga de vez em quando é fundamental. Hoje resolverei algumas questões, porei minha correspondência em dia e, acima de tudo, entregarei-me ao ócio criativo de que já falava em 1994 (portanto, antes do livro de Domenico de Masi) prof. Battaglia, meu mestre em Tecnologia da Construção na FAU.



Escrito por Juliana Guido às 09h39
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Diretamente para Conceição do Araguaia

   Mãe, quero agradecer você por ontem. Segui sua dica e experimentei uma verdadeira catarse. Uma experiência espiritual que me fez chorar e gargalhar ao mesmo tempo. E saber que eu não estou só. E que no fim das contas tudo dará certo. Eu estava precisando disso.



Escrito por Juliana Guido às 09h38
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O que podemos aprender com os gatos

 

    Eu me lembro de ter dito aqui em priscas eras o quanto eu gosto de gatos. E às vezes falo de Joaquim, meu siamês de quatro anos, um companheirão. Adoro observá-lo, olhar para ele, vê-lo brincando, andando pela casa com aquela leveza e graça tão peculiares aos felinos. E nesses quatro anos aprendi – e reaprendi – algumas coisas com ele. Outras estou tentando adotar, ainda que com alguma dificuldade porque se livrar de anos e anos de condicionamento mental não é nada fácil. E penso que todo mundo ganharia muito ao observar esses pequenos sábios peludos, mestres na arte do bem viver.

    Gatos têm consciência do próprio valor. Sabem que são bonitos. E não se acanham com um elogio dito em voz suave. Pelo contrário, demonstram sua satisfação com ele piscando para você.

    Ao ver um muro mais alto que de costume, gatos avaliam sua altura e pulam. Sabem que podem conseguir. Se acontecer o contrário pousam, mexem o rabo, contrariados, como se dissessem “que droga... não foi dessa vez...” e avaliam suas possibilidades. Sempre pode haver outro jeito de subir.

    Gatos comem quando sentem fome. Ninguém nunca conseguiu forçar um gato a comer. A bem da verdade, é quase impossível forçar um gato a qualquer coisa. A ordem das coisas dispensou os gatos de obrigações, deveres e demais deglutições de sapos como acontece com os seres humanos. E eles sabem aproveitar o fato como ninguém.

    Gatos também dormem quando o sono vem. E quando se sentem cansados, fragilizados, recolhem-se a seu cantinho – ou ao colo de quem amam – para refazer as energias. Gatos se tratam com carinho. Todo o carinho do mundo, porque sabem que são merecedores dele.

    Gatos sabem pedir o que precisam, seja atenção, comida ou amor. E sabem como pedir. Eles falam com os olhos. Tente resistir àquele olhar pidão e ao miado comprido seguidos de uma roçada em sua perna...

    Gatos não se deixam enganar por bobagens. Não têm paciência para quem fala com eles como se falasse com um bebê. Ao menor sinal de “cadê o pititinho da mamãe, cúti cúti cúti” olharão para você com aquela cara de “você acha que eu sou bobo?”.

    Gatos só se aproximam de quem realmente os quer. E de quem gostam. Eles captam o carinho no ar. Ganhar a confiança e a amizade de um gato não é tão simples assim. É um jogo de conquista quase tão complicado quanto aquele que usamos para conquistar a pessoa amada. Requer paciência, calma, um pouco do jogo de caranguejo, evasivo. Você não pode correr na direção de um gato. Deve sentar-se ao lado dele, mantendo uma certa distância, para que ele sinta e cheire você. Só quando ele sentir que está pisando em chão seguro vai se aproximar. Isto feito, você terá um amigo para sempre. Ele parará você na rua quando estiver passando para um dedo de prosa e um afago. E quando você se despedir se embaralha em suas pernas para que você pare, olhe nos olhos dele e o ouça miando para ficar mais um pouco.

   Gatos não são traiçoeiros, ao contrário de alguns cachorros que são capazes de morder você abanando o rabo, alegrinhos. Se você tiver um pouquinho de sensibilidade (um pouquinho só) saberá quando ele não quer conversa, porque ele demonstra por seus movimentos mais bruscos, pelo recuo ante ao avanço de sua mão. E se insistir ele a mordiscará. Não muito mais que isso.

   Ao contrário do que sempre se disse, gatos são, sim, fiéis a seus donos, não à casa onde moram, apesar de serem animais territoriais. O próprio Joaquim, em seu primeiro ano de vida, mudou-se de uma casa grande numa praça com um quintal enorme para um pequeno apartamento, e daí para São Paulo. E aqui hoje é sua casa. Mais especificamente ao meu lado. Ele anda atrás de mim pela casa, me espera todo dia chegar do trabalho, adoece e fica jururu quando viajo, deita em cima da CPU enquanto escrevo ou navego pela internet (ele está assim neste exato momento), dorme a meus pés. Ele sabe quando estou feliz, quando estou triste – nesse caso, chega perto de mim, me olha com aqueles olhos azuis como duas piscininhas e me acaricia como se dissesse “não fique triste, não, eu estou aqui”.

    Gatos são grandes companheiros. Amigos fiéis. Graciosos. Grandes mestres. Belos e altivos como um leão da aléia do templo de Delos. E espreguiçam-se gostoso como ninguém. 



Escrito por Juliana Guido às 09h37
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CPI

     Quem não deve, não teme. Investiguem logo essa porcaria toda. Já está ficando ridículo.

 

 



Escrito por Juliana Guido às 21h01
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Que nojo!

 

    Não se fala em outra coisa em São Paulo que não a inauguração do mais novo templo do alto luxo. A seção dedicada ao grand monde do Estadão dedicou a coluna de hoje exclusivamente ao evento, que contou com o casal governamental (pais, aliás, da gerente de Novos Negócios da loja) para cortar a fita de inauguração. Tinha uma foto imensa daquele senhor careca e sem graça e de sua esposa com seu eterno sorriso-Barbie de plástico (aquilo deve ser uma máscara de silicone chumbada na cara dela, não é possível!), devidamente acompanhada de uma notinha laudatória, como se eles estivessem enterrando o esqueleto do edifício da Eletropaulo que jaz há mais de dez anos abandonado atrás do novo prédio. A matéria estava de dar engulhos, mesmo considerando o padrão Giobbi de qualidade, que tem por função adular exatamente o público potencial desse novo empreendimento, esquecendo o resto do mundo (de quem só fala da maneira mais pejorativa possível quando algum dos “amigos da coluna” é incomodado, por exemplo, ao não conseguir passar pelo congestionamento perto da FAAP por causa das ruas tomadas pela estudantada – sim, já o vi escrever assim – com seus carrinhos velhos...).

    Passei ontem, domingo, por uma das laterais do edifício, voltada para a Marginal Pinheiros, quando voltava de um shopping onde fui almoçar. Francamente, conseguiram construir algo mais medonho que o prédio do antigo BancoSantos, mais ou menos um quilômetro à frente. Não fiquei nem um pouco surpresa ao saber que um dos responsáveis pelo projeto é o mesmo arquiteto (?) que acabou com o MASP, dividindo o maravilhoso salão de exposições aberto com os pedestais de vidro projetado de Lina Bo em um monte de salinhas escuras separadas por tapumes... É só o que se poderia esperar de tão sensível profissional: mais uma abjeta fortaleza neoclássica, um bunker bege à prova da plebe fedida - para eles todos nós que não topamos a idéia de pagar R$ 30 por uma hora (!) de estacionamento somos plebe fedida. (Sem despeito algum de minha parte, entreguei-me a um exercício de imaginação: olha só eu entrando no pátio com meu reles, pobrinho Palio 2003 sem insulfilm, ouvindo um CD do Sidney Magal, descendo vestida com meus jeans de loja de departamentos e minha blusinha básica de malha, sob o cabelo despenteado que eu mesma tinjo e por isso deve ostentar um manchado que obviamente não lembra nem vagamente o feito pelo cabeleireiro da Adriane Galisteu. Será que as vendedoras olhariam para mim? Virariam a cara na mesma hora? Ou já mandariam uns grandalhões de terno preto para me receber? Cartas para a redação.)

     Tudo ali faz sentido, na verdade. A loja já é mundialmente famosa como o templo da burguesia brasileira. Mulheres de deputados compram lá. Dondocas compram lá. Os ricos e famosos se estapeiam pelo novo mimo mais caro que vinte salários da copeira, mandado pela matriz francesa em edição limitadíssima: conseguir o mimo adquire nas vidas deles uma importância capital, torna-se uma glória, um grande feito pra se esfregar na cara das amigas na próxima festinha coberta pela reportagem do César Giobbi. No mundo que preza a celebridade acima de tudo, em detrimento do valor, ter é o que conta. Mostrar que se pode gastar milhares de reais numa bolsa é o máximo, mesmo que sua portadora seja uma megera.

(Continua)



Escrito por Juliana Guido às 21h00
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Que nojo! (2)

 

    Não quero fazer aqui o mesmo massacre perpetrado contra um jogador de futebol quando ele ousou desfilar sua Ferrari pelas avenidas cariocas.  Eu acho que o que é de gosto é regalo da vida, como já dizia a Bisa Alice. Se uma pessoa tem dinheiro para gastar e quer torrar R$ 3000 reais num sapato, problema dela. É que, pessoalmente, acho um despropósito. Eu me sentiria estranha. E burra. Não é questão de desqualificar as chiquérrimas e tradicionais grifes expostas na loja. Até porque a maior parte delas é referência eterna, atemporal de elegância. Mas, sinceramente, não vejo porque o fato de possuir, por exemplo, uma camisetinha de malha de marca italiana, modernosinha e parecidíssima com aquelas que a gente vê nas bancas do Brás mas cujo preço se aproxima dos quatro dígitos possa me fazer feliz. Outra. Acho que tudo tem limite. Ainda estamos num país extremamente pobre e ostentar do jeito que esse pessoal faz é paradoxalmente deselegante. Quer queira, quer não, é acintoso, coisa de nouveau-riche sem cultura. Mesmo se eu fosse podre de rica e soubesse que meu dinheiro foi conquistado com trabalho honesto não me sentiria bem comprando uma besteirinha qualquer que pagaria meses de salário de uma empregada. Futilidade mata! Não é necessário virar um monge tibetano, mas torrar dinheiro só por causa de uma etiqueta é ridículo. Precisamos de um pouco de bom senso. Só um pouco. Ninguém é mais feliz de verdade só por causa de uma bolsa Louis Vuitton. A vida é muito mais que isso. É exatamente essa premissa que o novo templo do consumo nega, nos dizendo que a felicidade é feita de pequenas coisas: uma pequeno helicóptero, um pequeno vestido, um pequeno relógio – e da pequena fortuna que você gasta neles.

 

PS 1 – Parem as rotativas! A proprietária da loja tem preocupação social, sim: paga creche e curso de inglês para os filhos dos funcionários. Ah, bom.

 

PS 2 – Só para ver como alguns são mais iguais que os outros. Assaltaram uma valiosa carga destinada à venda de inauguração e a carga foi achada rapidinho. Já os coitados dos meus vizinhos que tiveram seus carros furtados na rua de casa, nem sombra...

 

     Só para concluir. Uma das pessoas mais elegantes do País, que em outros tempos tomou porres de Dior diretamente em Paris, hoje costuma comprar suas roupas em lojas de departamentos. E fica chiquérrima. Nome: Danuza Leão. A prova cabal de que a elegância não depende de uma etiqueta, mas tem mais a ver com cultura e inteligência. 



Escrito por Juliana Guido às 20h57
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Memorial de execução da obra (2)

 

 

   O prédio já está na quinta laje. Já não dá para deixar a janela aberta impunemente e o sol não bate mais até se pôr. Adeus, luz dourada da tarde na parede.



Escrito por Juliana Guido às 16h08
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   Virei a noite de sexta para sábado sem dormir. O detalhe é que cheguei em casa às 4:30 da manhã para “acordar” às 5 e trabalhar. E o pessoal do trabalho se espantou com uma cena nunca vista antes: esta articulista que vos escreve tomando um balde daquela abjeta, hedionda água de batata caridosamente chamada “café”...

 



Escrito por Juliana Guido às 00h00
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