The Bittersweet Symphony

Minha banda está ensaiando, meio de última hora, a música “Power of Love”, (Huey Lewis & The News). Essa música ficou famosa como trilha sonora do filme “De Volta Para o Futuro”. Semana passada Daniel não pôde ir a um ensaio, de modo que assumi provisoriamente seus vocais. Embora já conhecesse a música de longa data (é a primeira de um CD anos 80 que queimei), o fato é que forçosamente me detive em sua letra. Muito bacana, por sinal, fala das contradições muito familiares a quem ama. Segundo a letra, o amor pode ser duro como um diamante ou macio como chantilly. Ele é forte, súbito. E cruel, às vezes. Mas é o que salva sua vida. Lógico, sem ele – e não me refiro aqui só ao amor específico por uma pessoa, embora esse possa ser seu aspecto principal – a vida fica parecendo água de uma garrafinha de plástico que ficou dentro do carro tomando sol. Horrível. Intragável.
Alguns fatos dos últimos dois dias, uns ocorridos comigo e outros com uma amiga bastante próxima, ainda hoje, me fizeram com que Huey Lewis cantasse repetidamente essa canção – bacaninha e gostosa, de resto – dentro de minha cabeça. E de relacioná-la à uma frase de outra, do grupo inglês The Verve. É a que dá título a essa crônica. E, segundo a música, também serve de título à própria vida. E perfeitamente ao amor, que é o aspecto mais pungentemente doce-amargo da vida. Amargo porque a falta de timing pode minar qualquer possibilidade de realização amorosa, mais do que a própria falta de amor. Porque os desencontros são constantes. Pela tensão entre duas pessoas que sentem tesão uma pela outra mas que é sublimada pela inibição, pelo medo de se entregar e de ferir e de se ferir. Pelo desejo que é despertado e irrealizado, coisa irritante. Ou então de realizar esse desejo e ainda se sentir feliz, mas estranha - pior, culpada pela possibilidade de ter confundido e machucado o objeto de seu carinho. E com medo de ter, assim, afastado um amigo querido. De outra maneira, o amargor vem de um amor que não se pauta pelo mínimo respeito ao outro. Do amor que vive de picuinhas, de traição mútua, de chumbo trocado. Um amor doente, que fere, machuca, rebaixa a ambos. Ainda amor, por incrível que pareça, porque "descoberto" depois da briga final, aquela que precede a arrumação das malas e a volta para a casa da mãe. E lamentado, naturalmente, por aquele pensamento de “e se eu tivesse feito diferente... eu deveria ter feito diferente...”. Pela culpa, em última análise, pelos próprios erros.
O amor dói? Sim. Fere? Inevitavelmente. Culpa? Muitas vezes. Mas como eu disse lá em cima, a vida sem a possibilidade de amor – e dessa vez me refiro mais diretamente do amor entre duas pessoas – é muito, muito pobre. E é o sonho de um grande amor que nos faz rolar na cama, ir de 0 a 100 em um segundo com a vontade de rir e de chorar ao mesmo tempo, se atirar no abismo mesmo morrendo de medo e sem saber se tem água lá no fundo, criar um imenso conflito entre a razão e o que se sente e muitas vezes aniquilar o próprio ego pelo que se acredita firmemente ser amor. Sabe aquela dor de estômago que nos faz ver que ele está ali, dentro de nossa barriga? O amor é aquela dor doce que nos faz sentir vivos. É a facada que deixa cicatrizes, belas cicatrizes que paradoxalmente fazem nossas almas e corações mais belos do que se fossem lisos, imaculados. Afinal, não se faz uma escultura sem desbastar a pedra a golpes de martelo.
Escrito por Juliana Guido às 23h59
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Matando a curiosidade
Há coisa de dois anos uma colega de trabalho foi à Parada Gay. Voltou animadíssima, cheia de fotos e dizendo maravilhas, que tinha sido muito divertido. Desde então fiquei também com vontade de ir, até porque, apesar de heterossexual, apóio a liberdade de cada pessoa viver sua sexualidade da maneira que mais lhe aprouver. E também a união civil, que nada tem de casamento na igreja, mas é tão somente um amparo legal para duas pessoas que vivem juntas.
Hoje matei minha vontade. Fui. E descobri um festaço. Muito animado, alegre (sem trocadilhos, por favor), num clima muito bom. Gente de todos os tipos, não tinha só gays, numa diversidade muito interessante. Engraçado, ainda há muito preconceito a respeito dela. Por exemplo, a amiga que deveria ir comigo foi impedida por sua mãe, alegando que ela (minha amiga) é uma mulher casada e não deveria participar dessa “bandalheira”. Minha avó também não me acompanhou, porque não se sente à vontade. Respeito isso, afinal, não deve ser fácil para uma pessoa mais velha ver dois marmanjos se beijando (e eles se beijam, mesmo – eles vêem uma oportunidade para mostrar o que querem).
Bacana. Gostei mesmo. Mas o melhor mesmo será o dia em que não precisaremos de uma Parada do Orgulho Gay. Ou de um Dia Internacional da Mulher. Será o dia em que todos terão suas opções, diferenças e direitos respeitados.
- A cobertura dos principais sites dá conta de que o prefeito de São Paulo fez um discurso apenas morno, sem maiores manifestações do público. Não. Foi retumbantemente vaiado.
- Não tem jeito dessa praga acabar. Vários grupos religiosos distribuíam folhetinhos convidando as pessoas a renegarem seu “pecado” e aceitarem a Deus... Quanta tolerância cristã.
- Na minha frente tinha um mala-sem-alça sacolejando uma bandeira azul e amarela com o número 45. Será que ele não estava no lugar errado? Até onde eu saiba, o pessoal desse partido, a começar pelo governador, é mais chegado num show-missa do Padre Marcelo – que já declarou que gays “devem se curar dessa doença”.
- A festa foi animada pelo pessoal da Trash 80. Desenterraram Xuxa, Dominó e Trem da Alegria. Também alguns shows curtos, mas inacreditáveis, de Genghis Khan e Jane & Herondy. Voltei à infância!
- As drags estavam lindas.
- É, Mara Maravilha. Não choveu, como você desejou na quinta, por ocasião da Marcha organizada pela Renascer, também conhecida como “Deus é Fofinho”!
Escrito por Juliana Guido às 18h49
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