Nana-o-rama


Finalmente, abril chegou!

 

 

    Atrasado, claro. O clima está mesmo de pernas para o ar, reflexo de tanta agressão do Homem. Mas hoje o dia está do jeito que eu gosto: céu muito azul, um solzinho ardido e um ventinho frio. Se existe Paraíso lá em cima, terá esse clima. Não me sinto bem no verão: pareço uma geleca escorrendo pelo chão em busca do primeiro ralo. Mas sou apaixonada pelo outono. Ele é gostoso, ameno, doce. Até a luz é menos agressiva. Tudo fica mais suave e reflexivo filtrado por aquela luz dourada. Este clima me põe em constante estado de poesia...

 

 



Escrito por Juliana Guido às 16h09
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A música do dia: com vocês, o rei Roberto Carlos!

 

 

    Essa crônica poderia tranquilamente estar no Bregorama. Até porque, atendendo a pedidos de leitores, farei mesmo uma matéria sobre ele (aguardem!). Hoje fui fazer uma coleta domiciliar de impressões digitais e o rádio do carro tocou uma versão maravilhosa de “Detalhes” com a Maria Bethânia. Ela é bárbara, mas por alguma razão prefiro a original. Mesmo assim fiquei arrepiada...

    Vocês podem dizer que Roberto Carlos é brega. Não sem razão. Podem alegar – com toda a razão – que ele nunca mais fez nada que preste desde os anos 90. Sim, ele se tornou um chato, e o luto pela morte de sua mulher, como todo o respeito pela dor dele, artisticamente foi um porre. Mas ninguém terá coragem de negar o valor dele na cultura nacional. Até porque ele já está no seleto rol daqueles que pertencem ao inconsciente coletivo brasileiro... É que, à primeira vista, RC é só um cantor sem aquele vozeirão e meio piegas. Mas só se entende suas músicas depois de alguma experiência de vida, de alguns pés na bunda, noites rolando sozinha na cama e, claro, de bons cafés da manhã. Só aí dá para entender o que ele queria dizer com “estrelas mudam de lugar/chegam mais perto só pra ver...”.

    Eu adoro “Detalhes”. Não posso mais assistir a um jogo São Paulo X Corinthians sem pensar nela. Mas a música dele que eu mais amo – e que descreve o que sinto neste momento – é mesmo mais antiga... E olha que faz muito tempo que eu não viajo para o litoral (bom, troque pelas retas da Castello Branco...).

 

AS CURVAS DA ESTRADA DE SANTOS

 

Se você pretende saber quem eu sou
Eu posso lhe dizer
Entre no meu carro na estrada de Santos
E você vai me conhecer
Você vai pensar que eu não gosto nem mesmo de mim
E que na minha idade só a velocidade
Anda junto a mim
Só ando sozinho
E no meu caminho o tempo é cada vez menor
Preciso de ajuda
Por favor me acuda
Eu vivo muito só
Se acaso numa curva eu me lembro do meu mundo
Eu piso mais fundo
Corrijo num segundo
Não posso parar
Eu prefiro as curvas da estrada de Santos
Onde eu tento esquecer
Um amor que eu tive
E vi pelo espelho na distância se perder
Mas se o amor que eu perdi eu novamente encontrar
As curvas se acabam
E na estrada de Santos não vou mais passar

 



Escrito por Juliana Guido às 16h08
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Troféu Miolo de Jegue! (quase estragando meu estado de poesia...)

 

 

     Deu hoje no Estadão. Li logo cedo e me deu azia... A seguir, a transcrição da manchete e do créme de la créme da excelente matéria do jornalista Arthur Guimarães.

 

PARA SEVERINO, ESTUPRO É UM ACIDENTE E CRIANÇA TEM DE NASCER

Presidente da Câmara declara que casou “mais ou menos virgem” e faz defesa velada da prostituição.

    “Política e religião devem caminhar juntas” (n. da t.: Ué, o Estado brasileiro não é constitucionalmente laico? Ainda bem que como presidente da Câmara ele é um grande conhecedor das leis...)

    “A mãe que tem seu filho sempre é feliz” (n. da t.: Como assim?)

    “Se houve o estupro, ela quis que essa criança permanecesse (n. da t.: Cuma? Explique, por favor.). Essa criança tem de nascer. Precisa ser criada com carinho e amor de mãe, mesmo que isso tenha sido causada por esse acidente horrendo (sic). E deve ter a ação dos familiares para que ela possa sentir que não é uma pessoa marcada.”

    “Deveria ter a pena de morte. Como eu sou cristão, não admito a pena de morte (n. da t.: Note-se o fantástico e coerente encadeamento de idéias). Mas o estuprador deve ter o pior castigo. Não merece o menor respeito da sociedade.”

    “Mulher tem de casar virgem. O homem tem que aprender como fazer o serviço e vai aprender com quem esteja disposta a ser professora.” (sem maiores comentários)

 

   Não desejo a nenhuma mulher da família de tão esclarecido deputado o “terrível acidente”, afinal, elas não têm culpa da montanha de asneiras proferidas por este senhor (o mesmo que diz que mulheres são “receptáculos”). Meu desejo será um tanto mais sádico. Espero que Severino reencarne como mulher e refugiada de guerra étnica.

 

PS – Minha amiga estudante de Rádio e TV esbravejava, hoje, contra o nova cartilha sobre “politicamente correto” da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, com a pretensão de “chamar a atenção” (sic) para expressões que “podem não ser ofensivas para quem fala, mas são para quem ouve”. Segundo esta cartilha, este texto já seria politicamente incorreto desde o princípio, ao utilizar um digno símbolo nordestino – o jegue – para se referir à burrice (outra vez!) de um político proeminente. Quer saber de uma coisa? O buraco é muito mais embaixo. O desrespeito não está só em se chamar um nordestino de “baiano”, mas em não gerar condições dignas de vida para cada cidadão – e pior, escorchá-los cada dia mais via aumento de carga tributária, sem dar o mínimo retorno em serviços para tal sangria. Ora, vão catar coquinhos!

  



Escrito por Juliana Guido às 16h06
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Blogus Operandi - breves instruções sobre blogs

 

 

     Hoje conversei longamente com minha mãe sobre blogs. Coincidentemente, Daniel Piza também se referiu a este fenômeno moderno em seu artigo do Estadão (excelente, aliás). Também estou pensando no assunto, principalmente depois que o UOL Blog pôs o Bregorama na lista dos “blogs legais”, com direito a link na página de abertura. O que, afinal, faz um blog ser lido - e atrativo?

     A idéia inicial – bem como sua configuração – é a de um diário virtual. A maior parte das pessoas que escreve um blog leva essa premissa muito a sério, falando de seus cotidianos. Algumas pessoas extrapolam, falando do que há de mais íntimo em suas vidas, numa exposição que considero perigosa e até inoportuna. Em tempos conturbados, há que se ter muito cuidado com o que se publica. Estamos num mundo Big Brother, onde somos observados a todo tempo – inclusive pelo que manifestamos. É muito saudável se preservar a intimidade. Fora a ressalva, acho ótimo que cada vez mais pessoas expressem idéias via internet. Quem tem alguma coisa a dizer deve fazê-lo, mesmo. A seguir, faço algumas observações sobre como fazer um blog – teoria e prática.

- Defina a “linha editorial”. Ele terá um assunto específico? Será sobre suas opiniões? Ou um ponto de encontro para seus amigos, até para que eles acompanhem seus feitos mais interessantes? É válido, sim. Mas repito: cuidado com o que escreve. Não acho uma boa transformar um blog num diário tão íntimo. Uma amiga, estudante de Rádio e TV, diz que diários são “bestas”, porque cada um sabe como está e como se sente. E, se passa para um caderno é porque no fundo espera que ele seja lido – então essa história de “segredo de diário” é meio estranha... Tudo bem, não descarto o poder catártico do ato de se escrever sobre o que se sente, mas tenho um certo pudor em escancarar, logo na internet, as dores de meu “coraçãozinho solitário”... Nada contra citar muito rapidamente ou insinuar, de forma sutil e inteligente, se isso pode contribuir para um bom texto. Mas certamente você tem coisas muito mais interessantes a dizer do que falar sobre sua intimidade. Então pare de olhar para o umbigo! O mundo à sua volta sempre tem assunto.

- Visual do blog. O ideal é saber mexer com HTML e criar uma página personalizada. Mas não é o fundamental. Eu mesma não sei criar uma página. Mas não há problema: é só escolher um template de seu hospedeiro. O critério é o equilíbrio: se vai usar imagens, escolha um mais neutro (como este aqui) para não cansar visualmente. E, por favor, esqueça essa infeliz e horrenda fonte Times New Roman. Eu adoraria poder usar a Eurostile, mas ela não será vista para quem não a tem instalada no computador. Sugiro Verdana ou Arial, básicas e legíveis.

- Imagens. Escolha com carinho. Desenhos e fotos podem valorizar qualquer texto. Ou pelo contrário, arrasá-lo, se for feio ou não tiver um propósito. Você desenha? Não se acanhe em transformar o blog numa galeria virtual. Um scanner simples resolve seu problema.

- Texto. Ninguém precisa ser literato e escrever cheio de termos arrevesados como se fosse membro da Academia Brasileira de Letras (nem eles). Mas confesso que a linguagem corrente da Internet, quase taquigráfica e cheia de aki, falow, blz, kkkk, naum e quejandos me dá calafrios. Escreva com carinho, com antecedência, num bom editor de texto, revise o texto e só depois publique. Trate seus leitores com carinho.

- Periodicidade. Precisa ser diária? NÃO. É besteira escrever só por escrever. Faça-o quando tiver vontade. Por exemplo, publico coisas novas a cada semana, mais ou menos, mas nada me impede de escrever no meio da semana se algo me chama a atenção. Inspiração, capisce?

- Cuidado com emoticons. São muito engraçadinhos, mas não tão facilmente compreensíveis. E também dão um ar muito bobo e infantil.

- Finalmente. Depois de publicar cada mensagem dê uma lida no resultado. Está gostoso de ler? Visualmente agradável? Filtre pela sua mais aguda crítica, como se não fosse você o autor, mas um leitor dos mais chatos.

    É isso aí. Blogs podem ser extremamente divertidos para quem faz. Devem sê-lo da mesma maneira para quem lê, independentemente se o leitor for aquele seu amigo de infância ou um completo desconhecido.

 



Escrito por Juliana Guido às 16h09
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Paulistanos

   Plataforma do Metrô Luz, quinta à tarde. Espero o trem. A meu lado, um homem e uma senhora conversam. Ela é de Salvador, foi fazer compras na José Paulino e está em dúvida sobre como chegar à estação Clínicas. Ele, vendedor, explica o caminho com bom humor. Num dado momento, os dois olham para mim e engatamos uma conversa sobre São Paulo.

    Ana – esse é o nome da simpática soteropolitana – se diz admirada com os paulistanos, que, segundo ela, dão informações de forma cortês e absolutamente correta, coisa que ela não encontra, por exemplo, no Rio de Janeiro. Gosta da delicadeza, do bom humor e da disponibilidade paulistanos.

    O vendedor desceu no Paraíso. Como eu iria para a Vila Madalena, Clínicas é caminho. Eu e Ana fomos conversando a viagem toda, num clima de absoluta simpatia e naturalidade.

    Saí feliz, andando nas nuvens. Como paulistana que sou, é sempre um orgulho ouvir uma pessoa de fora se referir de maneira tão lisonjeira ao paulistano. Principalmente porque ela não falou nenhuma mentira. Podemos parecer fechados à primeira vista, mas nunca vi um paulistano negar uma informação ou ajuda a alguém que precisa. Se um paulistano disser “passa lá em casa”, pode levar a sério. Só avise antes. Será recebido de maneira fidalga, com o melhor que ele pode oferecer e com o maior carinho possível.

    Achei engraçado quando, anos atrás, no Rio de Janeiro, ouvi “mas como você pode viver naquela cidade cinza, sem alma, sem graça?”. Como sem alma e sem graça? São Paulo tem alma, sim. Uma alma reservada, que não se expõe com tanta facilidade, mas extremamente receptiva, gentil apesar de sua aparente aspereza, acolhedora. E surpreendentemente bem humorada, como pode comprovar o rapaz que vi saltar do trem nas Clínicas com uma divertida cabriola circense. 

 



Escrito por Juliana Guido às 16h09
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