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Anotações de uma gourmande

Hoje minha avó me pediu para, depois do trabalho, ir ao Mercado da Cantareira comprar nozes. Eis um pedido que cumpro com o maior prazer... Sempre amei aquele lugar. Quando criança eu ia com minha bisa e madrinha Alice, que comprava o bacalhau na Páscoa e nozes, damascos e tâmaras no Natal (até hoje acho que Natal sem tâmaras não é Natal). Ou seja, tenho ligações afetivas com o lugar. É como andar na 25 de Março, outro lugar que a bisa adorava: não tem um milímetro daquela região toda onde eu não a veja, cabelos brancos, baixinha e atarracada, passinho rápido, jeito meio zangado e resoluto. E o Mercadão não fica atrás.
Mas não é só isso. A arquitetura é maravilhosa, projeto belíssimo de Ramos de Azevedo devidamente reformado na administração passada com um mezanino fantástico projetado por Pedro Paulo Saraiva. Reformado como se deve, não as demãos de tinta bege que eu já tinha visto, mas uma reforma de verdade, comme il fault. Suas bancas são uma festa para os olhos, tão coloridas e atrativas quanto os lindos vitrais. Uma variedade enlouquecedora de frutas, formas, cores. E os cheiros! Meu Deus. Hoje eu entrei e logo senti aquela mistura encantadora de frutas frescas, doces, envolventes, convidativas. Se houvesse um perfume assim em frasco compraria correndo... Que coisa deliciosa. Passear por aqueles corredores e ver aqueles queijos, amarelos em toda sua maciez pedindo para ser comidos. Vinhos como gemas líquidas, preciosas. Rubi e topázio. Vejo um rótulo, tento adivinhar seu sabor através do vidro, imagino a uva ainda no pé no longínquo vinhedo da França, Itália, Austrália, África do Sul, Espanha, Portugal, céus azuis luminosos, o vento brincando com as folhas e o sol aquecendo e dando doçura às uvas. Sou profundamente sinestésica, viajo mentalmente a lugares onde nunca fui fisicamente, dou verdadeiras voltas ao mundo. E isso é emocionante. O Mercadão merece ser desfrutado com todos os sentidos. E com a imaginação. Amorosamente.
PS – Daniel, amigo querido, pensei em você quando, enlevada, comia um doce sírio de ricota no Raful, do mezanino. Estava maravilhoso, a massa folhada curvando-se, crocante, no céu da boca, doce, cheia de mel, contrastando com a ricota, macia e azedinha no ponto. Uma verdadeira epifania. É tão bom que vira aquele tipo de coisa que a gente só quer dividir com quem mais gosta. É, você é um dos meus eleitos. Não podemos deixar de ir quando você voltar da Suíça. Em tempo, boa gravação e uma xícara de chá de gengibre, quente e doce, antes. Bonne chance et merde!
PS2 – K., se um dia você quiser, me avise e nos encontramos lá. Sentaremos a uma daquelas mesas no mezanino, olhando os vitrais, o movimento e conversando, enquanto degustamos um doce de ricota – ou um sanduíche de mortadela, caso você, fã do Chaves que é, assim prefira. Fica a gosto do freguês.
Escrito por Juliana Guido às 20h09
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Breve manifesto contra os programas policialescos
Tenho uma colega de trabalho que não perde um Cidade Alerta. E, naturalmente, esse é um grande assunto. Quase todo dia ela vem com uma história trágica para contar, daquelas cheias de sangue. Eu até tiro um pouco de sarro dela, inventei uma trilha sonora para seus “causos”: cantarolo a música de abertura do (grazie a Dio) finado Aqui Agora. Outro dia disse a ela que era tão bom ter uma colega contando sempre histórias tão alegres...
Eu até entendo o interesse de minha colega pelo assunto. Ela tem um filho carcereiro. Fica com o coração na mão a cada nova rebelião em cadeias, eu também ficaria. Mas, francamente, o que um programa do tipo Cidade Alerta ou Repórter Cidadão acrescenta às pessoas? Nada. Só dá medo. Mais medo do que a própria vida. Claro que ninguém aqui é tonto ou ingênuo para pensar que estamos seguros a qualquer hora do dia ou da noite. A coisa está feia, mesmo. Eu mesma tenho me convertido numa anti-social. Saio muito raramente, e ainda assim vejo umas três vezes se o carro está trancado, alarme acionado e rezo para encontrá-lo no mesmo lugar, são e salvo. E que eu mesma volte sã e salva.
Voltando aos programas. Um professor da Academia de Polícia que além de delegado é jornalista, pessoa de grande inteligência e senso de humor, disse uma vez para nossa turma que “bad news are good news”. Ou seja, o que serve para vender um jornal não são as boas iniciativas, a arte, a cultura. São as tragédias. O ser humano tem uma curiosidade sádica, adora um bom desastre – que não aconteça com ele mesmo, bem entendido. É como aquela cena de Cidade de Deus onde um dos rapazes da “turminha da pesada” é assassinado no meio da rua, em plena luz do dia, e junta aquele monte de gente para ver. Até mães com crianças de colo. Em minha opinião, isso é agravado pela falta geral de cultura e educação da população. Anos de aviltamento da educação pública. E a vida das pessoas está muito pobre, mesquinha, pequena. Vida interior? O que é isso? Cultura? É de comer? O que interessa é a vida alheia. Principalmente, as tragédias alheias, que de certa forma servem como um triste alívio, algo do tipo “tá ruim mas poderia ser pior... coitado...”. Não à toa, proliferam as revistinhas baratas de fofoca, os Big Brothers da vida.
E os "policiais" da vida são um horror. Apresentadores demagogos, metidos a salvadores da pátria que só fazem esbravejar contra tudo e contra todos, sem compromisso com a verdade dos fatos. Estes são devidamente distorcidos a fim de se obter a maior audiência. Generalização total: se um mau policial é mostrado, toda a Polícia automaticamente é má. E sempre dão a impressão de que a vida só tem coisas ruins, doenças, crimes. Não há espaço para a beleza, a humanidade, o desprendimento, para um mínimo que seja do que o ser humano tem de melhor. Claro, eles vivem da tragédia. O sangue é sempre muito mais vermelho nos policiais da TV.
Felizmente meus avós trocaram de programação aqui em casa.
Escrito por Juliana Guido às 20h04
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Paula, feliz aniversário. Mesmo eu sendo talvez a pessoa mais omissa do mundo, você é uma amiga querida e está sempre na minha cabeça – e no coração, também. Muito doce, romântica, idealista – uma pisciana em estado puro... A pessoa mais zen desse planeta. Não lembro, sinceramente, de algum dia ter te visto fora do sério. Com isso, você foi que me transmitiu a noção de que tudo tem seu tempo. Desde sempre foi um contraponto para a mais ansiosa e tresloucada das criaturas (outro dia me lembrou que morria de vergonha quando íamos juntas para a escola, porque você ia toda normalzinha e eu fazia uns rabos-de-cavalo com 350 trancinhas grudadas a durex...).
Amiga, muito obrigada por tudo. Tudo de melhor para você. Saúde e alegria para você, Daniel e Nicolas. Um grande beijo. Te ligo neste fim de semana.
PS – Você achava o Stallone melhor que o Bowie. Mas foi As The World Falls Down que você dançou com Daniel na festa de seu casamento, né não? Não deixei de observar o fato... (risos levemente sardônicos) Tá, reconheço que o Stallone fez um filme bom (F.I.S.T., aquele em que interpretava um sindicalista). E Rocky é, inegavelmente, um ícone pop! (Deixa eu parar por aqui senão você vai achar que eu me converti.)
PS2 - Lembra daquele dia em que você (ou eu mesma?) esqueceu a pasta de Desenho dentro do ônibus? Duas loucas em desabalada carreira atrás do dito cujo. Felizmente o ponto final era perto!
Escrito por Juliana Guido às 20h03
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Cuidado, avó psicopata perigosa ao volante!!! A farra das multas
Mais um fato espantoso pelas ruas brasileiras. Meus avós foram para Lindóia há duas semanas, a vó dirigindo o Corsa 1000 como sempre. Ela é especialmente apavorada com a velocidade, e é um saquinho dirigir na estrada com ela ao lado, resmungando o tempo todo que você corre demais – mesmo que você esteja a 110km/h em plena Castello Branco. E não é que hoje chegou uma multa para ela por excesso de velocidade?
Na última vez que fui a Bauru também tomei uma multa em plena Rondon, dando conta de que eu estava a 128 por hora. Nunca tinha tomado multa em dez anos de carta. E esta é a segunda que tomo num espaço de menos de um ano. Não estou dirigindo diferente do que sempre dirigi – fico com medo se acelero um pouco mais. E meu carro, embora relativamente novo, ainda é 1000. Estava me sentindo uma psicopata ao volante, a própria maníaca do Palio. Agora noto que nossa gloriosa indústria das multas, promovida por prefeituras e pelo maravilhoso governo do Estado (que fala pouco, trabalha muito – sic! - e gasta uma baba em publicidade em horário nobre, afinal 2006 já começou) está a todo vapor. Estou chegando à conclusão que hoje só não toma multa quem não dirige...
É brincadeira! Será que já não chega a verdadeira tunga que é o IPVA (o meu subiu quase 10% este ano em relação ao do ano passado) e os pedágios estratosféricos? A indústria automobilística nacional melhorou muito de anos para cá, produzindo carros com tecnologia moderna, mais seguros e confiáveis, mas ainda temos que dirigir em avenidas e estradas largas em velocidades de tartaruga, absolutamente desproporcionais. É só acelerar um pouquinho mais (por exemplo, para fazer uma ultrapassagem) que, dias depois, você recebe no conforto de seu lar uma simpática notificação. É o Poder Público cuidando (do dinheiro) do cidadão...
Escrito por Juliana Guido às 20h28
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Sobre fatos do fim de semana que certamente mudarão sua vida...
Com tanta coisa séria para preocupar causa-me espécie o destaque dado pela imprensa aos seis dedos do pé da Daniella Cicarelli! Bom, no mínimo ela tem mais apoio, não? Posso interpretar o fato à luz de uma matéria da Superinteressante deste mês. Segundo ela, boa parte das pessoas adora pegar um "podre" de um famoso para constatar que, no fim das contas, eles são gente como a gente. O fato de la Cicarelli ter seis dedos, então, transforma uma mulher rica e invejada num quase freak-show - o que pode ser consolador para muita gente...
Em tempo: não assisti ao último capítulo de “Senhora do Intestino”, ops, do Destino (sobre aquela empresária da Baixada Fluminense que vivia varada de fome, ave Maria). Só estou dando graças a Deus por não precisar ouvir aquela música ABOMINÁVEL da Maria Irrita por um bom tempo...
Mas vai começar outra novela. Glória Perez, aquela chata de galocha. E vai ter aquela menininha-prodígio chorona – Bruna Marquezine, a eterna Salete – fazendo papel de cega. Arre!
Escrito por Juliana Guido às 10h16
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