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The royal wedding (painted in pink)
Leio nos jornais de hoje sobre o casamento do príncipe Charles com Camilla Parker-Bowles. Nascidos um para o outro. Igualmente feios e desprovidos de graça. Mas essa notícia me alegra. Não é todo dia que um par de "feitos um para o outro" tem a oportunidade de ficar juntos. Na verdade é um privilégio de poucos nesse mundo complicado e desencontrado. E muita sorte. Congratulations!
Escrito por Juliana Guido às 22h00
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De volta ao prédio da Light
(para minha mãe)

Ontem (sexta) precisei ir até uma loja da operadora do meu celular para fazer uma recarga. A mais próxima de meu trabalho fica no Shopping Light, no centro de São Paulo.
Esse prédio é uma das lembranças mais bacanas de minha infância até a pré-adolescência. Minha mãe trabalhou lá na época em que ele sediava a Eletropaulo, de modo que, quando ia visitá-la, ela me levava passear por suas dependências. Conheci até o jardim que havia na cobertura. E a biblioteca, então? Era bárbara. Tinha livros raros, como uma inacreditável edição d´As Mil e Uma Noites dos anos 50, linda, enorme. O edifício Alexander Mackenzie (esse era seu nome oficial) era um prédio belíssimo, imponente, sóbrio, elegante. Belo trabalho de marcenaria. Lindos azulejos. Mármores. Vitrais. Mosaicos. Uma relíquia da época em que não se poupava tempo, dinheiro ou espaço para se construir um edifício.
Quando anunciaram a venda dele para que fosse transformado num shopping fiquei um pouco apreensiva. Minha mãe, então, chegou a ficar deprimida... Me senti um pouco aliviada quando soube que a obra seria coordenada por um professor de História da Arquitetura, especializado em restauro, com quem eu tive aulas na FAU-USP. Mesmo assim não tive pressa em ver o resultado.
Só fui conhecê-lo ontem. Fiquei decepcionada.
Os únicos lugares do edifício que conservam um pouco da arquitetura original são as caixas de circulação vertical (elevadores e escadas), com azulejos e marcenaria restaurados à perfeição. A entrada da Xavier de Toledo também foi mantida como era, com piso de mosaico, arandelas trabalhadas e vitrais no teto – passar por ela foi, para mim, uma volta ao fim dos anos 80. Dá para vislumbrar o que o prédio da Light foi um dia na loja de departamentos que ocupa o rés do chão (assim era chamado o térreo, ou nível que dá para o Viaduto do Chá), com um belíssimo piso em mármore e granito. Também vi uma livraria que soube adaptar sua decoração ao prédio antigo, mas só isso. O resto é feio de doer. Um forro branco de gesso com umas sanquinhas sem vergonhas que, francamente, não têm nada a ver com o prédio. E um piso em porcelanato imitando desenhos clássicos.
Professor Faggin, me perdoe, mas sendo o senhor o grande conhecedor de história que é, eu esperava mais. Conseguiram transformar um edifício fantástico num shopping como outro qualquer. Tiraram toda a graça do prédio da Light. Os espaços restaurados são pequenas ilhas de beleza antiga e dignidade soltas, isoladas, deslocadas no pastiche caridosamente chamado “centro de compras”. Fiquei triste...
PS - O que me deixou mais espantada foi pensar que a mesma equipe que perpetrou esse crime arquitetônico foi capaz de fazer uma restauração tão linda e perfeita como a do Centro Cultural Banco do Brasil, na Álvares Penteado (também no centro). É brincadeira, né?
Escrito por Juliana Guido às 16h23
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Parece preocupação de dondoca-classe-média... mas...
Voltei de Bauru quarta passada. Antes de sair, abasteci o carro e aproveitei para calibrar o pneu, que estava insistindo em murchar. Quando cheguei a São Paulo, ele estava baixo de tudo. Algum prego, pensei. Fui ao borracheiro e não era prego. Era a roda torta. Devo ter passado de mau jeito em algum buraco e ela entortou - claro que não tinha como o pneu ficar cheio. O borracheiro pôs o estepe no lugar dele e deu um jeito de desentortar, mas agora ele só vai servir mesmo como estepe.
Sei que existem coisas muito piores na vida para causar preocupação. Na ordem das coisas, isso não foi nada. Não é isso que me abala. O que me deixa intimamente furiosa é saber que eu (você também) pago uma baba de impostos - de cada ano, trabalho quatro meses para pagar impostos - sem ter retorno algum. Não é só o asfalto comedor de rodas. É o plano de saúde que tenho que pagar. É o seguro do carro. É a escola que meus pais pagaram por anos e anos até que eu, privilegiada, conseguisse entrar numa universidade pública. É toda a contrapartida que o governo, seja em qual esfera for, fica devendo a todos nós.
E a todas essas ainda somos obrigados a engolir a publicidade oficial, dando conta de que somos, sim,muito bem cuidados pelo governo. É Fome Zero pra cá, “falar pouco e trabalhar muito” pra lá. E, com o perdão do mau termo, nossos saquinhos vão para a Lua. E os impostos, sabe lá Deus.
Escrito por Juliana Guido às 15h47
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De homens e máquinas
(Dedicado a D.A., amigo de longa data que ora volta a estabelecer contato)
Lembro de, muito tempo atrás – mais especificamente, nos tempos de escola – ter lido um breve conto de Antoine de Saint-Exúpery (injustamente lembrado apenas como o autor do livro preferido das misses, da Colômbia até a Índia), onde falava da visão de um casal de trabalhadores no trem que tinha um menino de beleza angelical dormindo em seu colo. Falava do espanto em encontrar uma criança tão linda, que poderia muito bem ser um Mozart-criança, em meio a gente tão rústica e embrutecida. E concluía, tristemente, que Mozart-criança iria para a estranha máquina de entortar homens.
Muitas vezes pensei nesta crônica, mesmo sem lembrar dela em detalhes. Especialmente nos últimos tempos, em momentos em que a tristeza e a frustração me oprimiram de maneira cruel. As circunstâncias da vida também me obrigaram a entrar na máquina de entortar homens. Não me queixo muito, não. Não maldigo. Me formei em Arquitetura, mas senti a água bater na bunda quando me vi sozinha em um apartamento em Bauru, trombando com o gato, inventando o que fazer para não enlouquecer de vez e quase tendo que vender o carro para comer. Depois dessa fase jurei para mim mesma – e foi um juramento à Scarlett O´Hara, tendo um dos cenários mais bonitos de São Paulo por testemunha – nunca mais ficar sem nada para fazer. Deus ouviu minhas preces e logo abriu um concurso público, para perita criminal. Prestei e minha tensão era tanta que fiquei no exame escrito por ridículas duas questões. Não fiquei muito tempo chorando: prestei os dois que abriram em seguida e passei em ambos. Hoje trabalho como papiloscopista, liberando RGs e atestados de antecedentes, coisa que, tirando a análise das impressões digitais (algo muito mais interessante do que parece à primeira vista) é altamente burocrática e maçante. Frustrante? Sem dúvida, principalmente para quem a vida toda ouviu loas às suas brilhantes perspectivas na arte. Dói demais pensar que você possa estar num trabalho que sabe ser muito aquém de toda a sua capacidade e potencial. Muitas vezes me senti a pior das criaturas, a mais medíocre, como se estivesse vendendo minha própria alma para pagar as prestações do carro... Mas abraço esse trabalho com amor. Procuro executá-lo da melhor maneira que posso porque me agrada muito a idéia de dormir cansada, mas com a sensação de um bom trabalho cumprido – o que pode ser compensador. Um desafio à frustração.
Sei que esta foi uma escolha difícil, como o são todas as grandes escolhas da vida. O campo da arquitetura está fechado demais, e, por mais que ame a profissão na qual me formei e saiba que, apesar de tudo vou morrer arquiteta, não acho que eu mereça trabalhar em condições aviltadas como os poucos amigos que conseguiram um emprego na área. No mais, tenho meus planos, e, para isso, a estabilidade proporcionada pelo emprego público ajuda. Mais. Sei que esta situação é passageira. Assim que for aberto, prestarei concurso para perito criminal, a profissão de meu avô. Cresci vendo peritos fazendo laudos em volta da mesa de jantar da casa de minha avó, e considero o trabalho de perícia fascinante. Assim resolvo dois problemas de uma vez: faço um trabalho que me instiga intelectualmente e consigo o padrão de vida que quero – sem luxo, mas digno, tendo minha casa do jeito que quero, com um buriti do Pará no jardim.
Não sou a única nessa situação. Conheço outros Mozarts-criança no meu trabalho. Gente superqualificada que se viu obrigada a prestar um concurso que exige só 2º grau. Filósofos. Químicos. Físicos. Advogados. Linguistas. Fotógrafos. Artistas. Gente de altíssimo nível. E vejo acontecer em outros lugares, também. E saber disso dói em mim, também. Assim é a vida. Somos obrigados a engolir a frustração e levar a vida. Até porque seria muito pior não ter o mínimo para uma vida digna e ainda não conseguir fazer o que se ama. E, devemos, se possível, encontrar outros canais para expressarmos nossa verve... É, a velha história de ver que aprendizado se tira de tudo isso.
Mas veja a foto que ilustra esta crônica. Ela foi tirada hoje de manhã bem cedinho, antes das sete da manhã e mostra um espaço do prédio onde trabalho. Já dizia um amigo meu que a hora mais escura e fria da noite é aquela logo antes do amanhecer. O dia vai amanhecer, quer a máquina de entortar gente queira, quer não. E vai ser maravilhoso.
Escrito por Juliana Guido às 18h43
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Mensagem de nossos patrocinadores...

Hoje comecei a andar com a máquina fotográfica na bolsa. Era uma vontade antiga minha porque sempre encontro pelas ruas coisas que merecem ser eternizadas em uma foto. Flagrantes da vida, imagens interessantes, esse tipo de coisa.
Bom, agora há pouco estava voltando do trabalho, descendo a rua de trás da de casa quando me deparei com essa antiga placa de trânsito, enquadrada por essas folhas vermelhas. Achei que ela continha um lembrete: a vida é curta, aproveite. Divido a mensagem com vocês. Carpe Diem!
Escrito por Juliana Guido às 15h55
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